
As mudanças climáticas não são mais abstrações distópicas de um futuro distante. Cada dia mais presentes nos noticiários, o aumento das temperaturas, as longas estiagens e os eventos extremos impactam diretamente a produção de alimentos e as ações de reflorestamento. Pensando nesse cenário desafiador, os cientistas se perguntam: como fazer com que plantas jovens consigam se estabelecer em ambientes cada vez mais hostis?
Em um contexto global, o reflorestamento cumpre um papel estratégico para o nosso futuro. Além de regenerar áreas degradadas, ele contribui para a regulação do clima, a proteção do solo e a manutenção da produtividade agrícola. Pensar agricultura e restauração ambiental como temas separados já não faz sentido. É justamente por isso que essa temática integra o escopo das pesquisas desenvolvidas pelo INCT NanoAgro.
UEL: a casa do Óxido Nítrico no INCT
Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), o Laboratório de Ecofisiologia Vegetal, coordenado pelo professor Halley Caixeta de Oliveira, investiga como os processos fisiológicos das plantas podem ser modulados para aumentar sua resistência a estresses como a seca. Um dos focos do grupo é entender o papel do óxido nítrico (NO), uma molécula naturalmente produzida pelas plantas, e que atua como sinalizador em processos ligados ao crescimento, à germinação e às respostas ao estresse ambiental.
Um dos desafios no trabalho com o NO é a sua alta instabilidade. Fora da planta, ele se dissipa rapidamente, o que dificulta seu uso em estratégias agrícolas ou florestais. Parte importante das pesquisas do laboratório busca entender como fazer essa molécula chegar às plantas de maneira eficiente e controlada.
Nanopartículas como aliadas

Uma das estratégias estudadas pelo grupo envolve o uso de nanopartículas à base de quitosana, um biopolímero biodegradável, para transportar doadores de óxido nítrico. Essas nanopartículas funcionam como uma espécie de “embalagem protetora”, evitando que a molécula se perca rapidamente e permitindo sua liberação gradual dentro da planta. Entre as formas de uso dessas nanopartículas, uma tem ganhado atenção especial nas pesquisas do laboratório: o priming de sementes.
O que é priming de sementes?
O priming de sementes é um tratamento feito antes do plantio. As sementes são hidratadas de forma controlada para ativar os primeiros processos da germinação, mas sem que a planta chegue a nascer. Depois disso, elas são secas novamente e plantadas.
Na prática, a ideia é “preparar” a semente para responder melhor quando encontrar o solo. Quando funciona, o priming pode acelerar a germinação, tornar o nascimento das plântulas mais uniforme e aumentar as chances de sobrevivência em condições adversas. Mas o método também tem riscos: em algumas espécies, a hidratação rápida demais pode causar danos internos e comprometer o desenvolvimento da planta.
O trabalho com sementes de espécies nativas
Foi nesse contexto que a então graduanda Laura Lopes Maldonado desenvolveu seu TCC na UEL, sob orientação do professor Halley Caixeta. Sua pesquisa investigou os efeitos do priming de sementes com nanopartículas doadoras de óxido nítrico em diferentes espécies arbóreas nativas da Mata Atlântica, usadas em programas de reflorestamento.
Os resultados mostraram que não existe uma resposta única. Em algumas espécies, o simples tratamento das sementes com água foi prejudicial, reduzindo a emergência e o vigor das plântulas. Já o uso das nanopartículas com liberação controlada de óxido nítrico apresentou efeitos positivos principalmente no desenvolvimento das raízes, ainda que esses efeitos variassem conforme a espécie e a dose utilizada.
Nesse conjunto de experimentos, a espécie que apresentou a resposta mais consistente ao nanopriming foi o jangadeiro (Heliocarpus popayanensis Kunth), com melhores resultados associados às concentrações intermediárias do liberador de óxido nítrico, indicando um efeito positivo mais claro no desenvolvimento inicial das raízes durante o experimento.

Mais do que apontar uma solução pronta, o trabalho de Laura evidenciou limites importantes: técnicas simples e comprovadas também podem falhar, e mesmo abordagens mais sofisticadas exigem ajustes finos e conhecimento profundo da biologia de cada planta.
A importância da continuidade das pesquisas
Hoje mestranda, Laura segue atuando no mesmo grupo de pesquisa e participou como coorientadora do TCC de Eloisa Merissi Ferreira, outra estudante de graduação em Ciências Biológicas na UEL. A pesquisa de Eloisa deu continuidade direta às investigações anteriores, mantendo o foco no priming com nanopartículas doadoras de óxido nítrico, mas ampliando a abordagem.
Seu trabalho comparou os efeitos do tratamento em dois contextos distintos: a embaúba-do-brejo (Cecropia pachystachya), uma espécie arbórea usada em programas de reflorestamento e o tomate cereja (Solanum lycopersicum L. var. cerasiforme), um produto agrícola amplamente cultivado. A proposta era entender se a mesma estratégia funcionaria de forma semelhante em plantas com usos e características tão diferentes.
Os resultados reforçaram uma mensagem central: a resposta ao tratamento depende fortemente da espécie. Em um dos casos, o priming apenas com água voltou a apresentar efeitos negativos. O tratamento com nanopartículas não gerou ganhos expressivos em todos os parâmetros, mas mostrou tendências positivas associadas ao desenvolvimento das raízes e à velocidade de emergência, sobretudo em concentrações específicas.
A ciência constrói conhecimento e não atalhos
O que essas pesquisas mostram, em conjunto, é um caminho científico bem delineado. Ao testar diferentes espécies, doses e contextos, o laboratório constrói um corpo de conhecimento robusto, capaz de sustentar decisões futuras com mais segurança. Outras pesquisas feitas no laboratório usando o NO para enfrentamento de estresse hídrico aumentaram em 130% a produtividade de soja, por exemplo.
Esse tipo de avanço não nasce de respostas rápidas, mas de investigações acumuladas, feitas com rigor e continuidade. O investimento em pesquisa, por meio de mecanismos como os INCTs, permite justamente isso: tempo, estrutura e formação de pessoas para que soluções sejam exploradas em profundidade, antes de serem levadas ao campo.

No enfrentamento de desafios complexos como as mudanças climáticas, essas pesquisas deixam uma lição clara: não existem atalhos nem receitas universais. É preciso testar, comparar, errar e ajustar, respeitando as particularidades de cada sistema biológico. Só assim é possível transformar ciência em soluções reais, sustentáveis e duradouras.
Quer construir soluções sustentáveis e duradouras para o Agro junto aos nossos pesquisadores? Envie uma mensagem para o Núcleo de Inovação do INCT NanoAgro.






