PortugueseEnglish

Feromônios e nanotecnologia avançam no manejo sustentável do percevejo-marrom da soja

O uso de feromônios no manejo de pragas agrícolas tem sido explorado como alternativa para tornar o controle mais preciso e menos dependente de aplicações massivas de inseticidas. O aumento da resistência dos insetos aos defensivos químicos e a busca por tecnologias mais sustentáveis para culturas de grande escala, como a soja, aquecem o interesse por estratégias como essa. Entre as principais pragas da cultura está o percevejo-marrom (Euschistus heros), responsável por danos diretos aos grãos e perdas de produtividade em diferentes regiões produtoras.

Esse é o foco das pesquisas conduzidas pela professora Maria Carolina Blassioli Moraes, no Laboratório de Semioquímicos da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, cuja atuação integra a rede do INCT NanoAgro. Há mais de uma década, a equipe do laboratório trabalha no desenvolvimento de estratégias baseadas em feromônios para o monitoramento e manejo do percevejo-marrom na soja. Ao longo desse período, a pesquisa evoluiu desde armadilhas convencionais até sistemas nanoestruturados biodegradáveis voltados ao controle localizado da praga.

 

Armadilhas com feromônio abriram caminho para novas estratégias de monitoramento e controle

Na cultura da soja, o monitoramento do percevejo-marrom costuma ser realizado com o chamado “pano de batida”, método em que técnicos percorrem a lavoura manualmente para estimar a população de insetos. Além da alta demanda de mão de obra, esse sistema pode dificultar decisões rápidas sobre o manejo da praga.

Foi nesse contexto que os pesquisadores da Embrapa, Miguel Borges, Raul Laumann e Maria Carolina Blassioli Moraes, buscaram criar formas mais eficientes para fazer o manejo desses insetos. Os primeiros estudos do grupo investigaram o uso do feromônio sexual do percevejo como ferramenta de monitoramento populacional.

Os resultados foram publicados no artigo “Monitoramento do percevejo-marrom Euschistus heros* (Hemiptera: Pentatomidae) por feromônio sexual em lavoura de soja”, divulgado pela revista Pesquisa Agropecuária Brasileira. Na pesquisa, os cientistas desenvolveram armadilhas utilizando garrafas PET adaptadas, contendo dispositivos impregnados com o feromônio. Dois sistemas de liberação foram avaliados: septos de borracha butílica, tradicionalmente utilizados em estudos com feromônios, e um liberador de base celulósica produzido no Japão. O objetivo era atrair os percevejos para as armadilhas e, a partir da captura dos insetos, acompanhar a dinâmica populacional da praga na lavoura.

Os resultados mostraram que as armadilhas com feromônio conseguiram detectar a presença do percevejo de forma mais precoce e eficiente do que o pano de batida, especialmente nas fases críticas da soja. Isso permitia antecipar decisões de manejo e reduzir aplicações desnecessárias de inseticidas. Além da eficiência no monitoramento, os pesquisadores também identificaram dois sistemas de liberação cujo desempenho em condições de campo foram satisfatórios, reforçando o potencial dos feromônios como ferramenta eficaz para o manejo de precisão.

Ao mesmo tempo, os estudos também evidenciaram alguns desafios tecnológicos. Os primeiros dispositivos utilizados eram feitos com materiais não biodegradáveis e precisavam ser recolhidos após o uso, o que criava limitações operacionais e ambientais para aplicações em larga escala.

 

Nanoemulsões biodegradáveis buscam transformar o manejo localizado da praga

Com a validação do monitoramento por feromônio, a linha de pesquisa avançou para uma nova etapa: o desenvolvimento de sistemas biodegradáveis capazes de liberar o composto de forma mais estável e sustentável no ambiente. Foi nesse momento que a nanotecnologia passou a ocupar um papel central na pesquisa. O trabalho mais recente está sendo desenvolvido no âmbito do INCT NanoAgro e conta com a participação de Caio Costa, bolsista de iniciação científica, sob supervisão de Flávia Galarza, pós-doutoranda no Laboratório de Semioquímicos, coordenado pela professora Maria Carolina.

 

Imagens cedidas pelo Laboratório de Semioquímicos da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia

 

A pesquisa busca transformar o feromônio em uma nanoemulsão, utilizando componentes biodegradáveis e lipídios para criar um sistema que libera o feromônio de forma gradual no ambiente. Diferentemente dos estudos iniciais, em que o feromônio ficava concentrado em armadilhas físicas, a nova estratégia utiliza a aplicação direta da nanoemulsão sobre as plantas por meio de spray. A nanotecnologia, nesse contexto, atua como um sistema que estabiliza e prolonga a liberação do feromônio, permitindo que ele permaneça ativo no campo por mais tempo após a pulverização.

 

Imagens cedidas pelo Laboratório de Semioquímicos da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia

 

Nessa etapa, o objetivo já não é apenas monitorar a presença do percevejo, mas manipular seu comportamento no campo, viabilizando estratégias de controle localizado. A ideia consiste em aplicar a nanoemulsão em áreas específicas, geralmente próximas ao refúgio dos percevejos, durante fases críticas da cultura da soja. Essas regiões tratadas passam a funcionar como pontos de atração para os insetos. Com isso, em vez de pulverizar inseticidas em toda a área cultivada, o produtor pode concentrar métodos de controle apenas nesses locais, utilizando fungos entomopatogênicos ou aplicações localizadas de inseticidas. 

Segundo os pesquisadores, essa abordagem pode contribuir para reduzir custos de produção, diminuir a quantidade de defensivos aplicados no ambiente e aumentar a precisão das estratégias de manejo.

Os resultados mais recentes ainda estão em fase experimental, mas os testes já demonstraram, em áreas de campo, que a aplicação da nanoemulsão atrai mais percevejos para as áreas tratadas quando comparadas às áreas não tratadas. Embora ainda não haja validação em larga escala sobre redução populacional em áreas comerciais, os estudos indicam um novo caminho para o uso de semioquímicos e nanotecnologia em estratégias de manejo mais precisas e menos dependentes de aplicações em área total.

 

Imagens cedidas pelo Laboratório de Semioquímicos da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia

 

Pesquisa em rede conecta nanotecnologia e agricultura sustentável

A pesquisa é conduzida no Laboratório de Semioquímicos da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, um dos 23 laboratórios associados ao INCT NanoAgro. Nossa atuação em rede permite integrar diferentes áreas do conhecimento, conectando pesquisadores especializados em nanotecnologia, agricultura, química, biologia e sustentabilidade para o desenvolvimento de soluções voltadas aos desafios do agro brasileiro.

Dentro do INCT NanoAgro, as pesquisas estão organizadas em oito eixos temáticos que envolvem desde o design de nanomateriais até estudos de impacto ambiental, sustentabilidade e agricultura de precisão.

 

Conheça os eixos temáticos do INCT NanoAgro. 

 

Facebook
Twitter
LinkedIn
Email